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Tintas poéticas e crônicas
Bira Nascimento



29/03/2010 13:01
Por Acaso...
Esse é um poema que lembra um olhar em frente a um hotel. Com um desejo de ver quem foi, só por um instante, querendo voltar..

Se por um acaso,
Em algum momento
Meu olhar com o teu se cruzar
E ele te demonstrar mais do que meus pensamentos
Por favor, não se importe, são apenas as palavras que não te disse
São apenas os carinhos que não te fiz...

Se por um acaso, em algum outro momento
Os meus gestos te revelarem mais do que penso
Não ligue...
são gestos quase que sem senso
São apenas os desejos incontidos que, descuidadamente, sem perceber os deixo escapar...

Se em algum momento perceberes
Uma inevitável alegria em meu sorriso
Não te cuides, pois às vezes somente preciso
Saber que estás por perto
Ou às vezes ao longe me contento
Como um anjo, te ver sem me deixar conheceres

Se de repente, te mostrar mais do que minha intenção de estar ao teu lado, desculpa-me
São apenas as vezes que quis te escutar
Ouvir-te em segredos falar
Ou talvez, quem sabe, esquecer contigo do tempo...esquecer até do luar!!

Mas, se noutro momento também perceberes
Que quando o teu olhar com o meu se encontra
Há palavras que também queres dizer-me
E abraços e carinhos que não queres mais esconder-me
Então peço-te...não te hesites!
Não te guardes na ansiedade do silêncio, pois não foi por acaso que os teus lábios próximos aos meus agora existem...!...!

Bira Nascimento | comentários(0)



24/12/2009 11:38
Título:Declaração de ano novo de um surfista de alma

Eram quase 16h. Aparentemente, seria mais uma terça-feira qualquer. Mas não seria. O tempo estava nublado. Na verdade, estava fechado mesmo. O céu em tons de um cinza escuro davam a impressão de que era mais tarde naquela praia. Garoava.

Parei então o carro no lugar de costume. Aliás, tem tanta coisa nessa vida que a gente só faz de costume. Quando menos esperamos, estamos novamente cara a cara com a rotina. Mas, algo me consolava: eu a estava desafiando em mais uma vez.

Parei o Uno 93 no mesmo lugar, mas me sentia o último dos homens naquele momento, por ter ido até o mar para encará-lo novamente com minha prancha 7.1 ... é, às vezes, encaro o mar; em outras, eu bato um papo com ele.

Mas, o mar também tinha desafiado a rotina dos últimos anos dele. Estava – na linguagem dos pegadores de onda – ‘back wash’: um tipo de mar que a onda faz que forma e não forma. Ou, simplesmente, mexido demais. Fiquei ali, no carro, com as janelas fechadas, escutando a força dos pingos aumentarem.

Não havia mais ninguém, além de mim, estacionado naquela ladeira. No mar, então, não havia um surfista vivo. Apenas um casal apressava os passos para deixar a praia.

Se passou meia hora. Eu ainda estava ali, me perguntando se não teria sido melhor ter seguido a rotina e ido pra casa após o trabalho, mais especificamente para a cama, debaixo de lençois, com o clima naquelas condições de chuva e frio. Ventava forte. De repente, o mar muda suas feições. Continua mexido, mas as ondas aumentaram consideravelmente.

Um outro surfista, ao longe, me chama a atenção. ‘Não acredito’. Pensei. ‘O cara é maluco! Vai entrar nesse mar?’. Ele caminhava com uma estranha serenidade em meio aos fortes pingos. Os cabelos grandes estavam molhados e tinham um tom de branco. Era esguio e trajava apenas uma bermuda vermelha. ‘Pôxa, nem um short jhon esse cara vai vestir?’.

As ondas aumentaram e eu estava praticamente debruçado sobre o painel do carro. Pensei que poderia descer e tentar evitar o ‘maluco’ de encarar aquele mar. Não dava pra ver nem o horizonte. Mas, não dava mais tempo, o surfista entrou no mar e, com a mesma serenidade, furou todas as ondas na forte arrebentação. Eu não sabia o que pensar.

A confusão na cabeça aumentou ainda mais quando vi uma verdadeira ‘Mórra’ (maior onda da série) apontar no embaçado horizonte e ver o cara remando pra ela. ‘Vai levar um caldo daqueles’, pensei e torcendo pra que o pior não acontecesse. Pra minha surpresa, ele dropou. Foi o drop mais consciente que já vi na vida. Meus olhos estavam abertos, meu corpo paralisado e minha mente confusa.

Continuou dropando... uma, duas, três.... perdi a conta. Tubos, rasgadões solitários, floaters e um aéreo que eu diria ‘insano’. Ao meu ver, naquela manobra, a prancha havia descolado uns quase 2 metros do lip. Com essa, ele deixa o mar. Crava a prancha na areia e me dá um aceno. Neste momento, eu estava fora do carro, parado com os braços cruzados, embasbacado. Sem palavras. Os pingos me molhavam, mas não sentia o frio. Estava absorto diante do que acabara de contemplar.

De repente, ele deixa a prancha na areia. Mas, antes de ir, se agacha e escreve:

“Sou JC e te acompanho nesse mar todos os dias”. A frase mudaria muito da minha rotina daquele dia em diante...

Acredito que aquele surf foi visto por outros surfistas também. Acredito que outros também tiveram a visita daquele Homem. Cada um, na sua rotina particular. Muitos ainda esperam a visita dele nesta época do ano. Mas, ele chega assim.. em uma terça-feira modorrenta. Num dia sem avisar.. talvez, nublado também.

Essa é uma crônica de ano novo, de um surfista de Alma. Deixo que você conclua o que preferir.

ah.. e feliz 2010!

Bira Nascimento | comentários(0)

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